o porquê que não serviria para ser escritora.

- desde quando escreve?
- bem, senhor, desde muito jovem - risonha
- desde quando?
- desde jovem! que dizer - se recompõe- sobre meus sentimentos, escrevo a pouco tempo, mas sempre escrevi sobre o resto.
- então há apenas seus sentimentos e o resto?
-  sim. escrever não é fácil..
- certo, certo. e você veio até aqui para....?
- para apresentar minha história.
ele pega o caderno improvisado, já desgastado e com folhas inchadas e marcadas pela caligrafia grossa da menina.
ele folheia uma, duas, três páginas.
- moça, essa história não é sua, você mesma escreveu aqui -aponta.
- sim, é sobre um amigo.
- então você também escreve sobre os outros ?
- mais ou menos. este menino fez parte da minha vida.
- namoradinho de escola?
- eu nunca quis namorar com ele. eu andava com ele, o mais esquisito de todos. eu o achava um exagerado, um ignorante sem senso crítico sobre os assuntos mais "densos" da vida, como a sociedade, o governo. ele era um leigo, nunca namoraria com ele.
- assuntos densos.. claro.. então por que decidiu escrever sobre ele. ?
-pausa-  o importante não é o que eu achava dele, ou os motivos que me fizeram escrever sobre ; ele era único e ponto. um caso único e perdido. um furacão contido, nascido de um berço estranho, um bruto romântico. Todo ele era um fato consumado e consumido por mim! Eu sugava a paciência dele, ele me aguentou mais do que eu mesma me aguento. ele não era inimigo - e  muito menos amigo.
ele era neutro. e o neutro sempre me agradou.
- pegue seu caderno, te ligaremos mais tarde.


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